Contribuições da música na formação do cidadão

12/09/2022

AMÉRICO PERIN

  

Xingamentos, amizades de anos que se afetam... não pude deixar de pensar em qual contexto estamos nós, mesmo após milênios do que pensavam os gregos antigos sobre arte, educação, formação dos cidadãos...

Os antigos filósofos gregos já haviam encontrado algumas contribuições da música na formação do cidadão ideal, sustentando que certos “modos” - tipos de construção de escalas - musicais influenciam diretamente na formação da personalidade do cidadão prejudicando-o ou beneficiando-o.

Platão, por exemplo, que se encontrava ligado às questões relacionadas à ética e à política, vendo a instabilidade da vida política grega daquela época, percebeu a necessidade de se buscar uma melhor formação para a sociedade, a fim de impedir que desejos individuais não sobressaíssem nas decisões políticas vigentes.

Ele afirmava a existência de dois mundos distintos: o mundo das ideias e o mundo das aparências. Fazia parte do mundo das ideias a alma e a mente. Pensava que essa divisão serviria também como uma orientação para sistematizar e se entender os desejos e as ações humanas e suas consequências, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Não percebemos, em muitas ocasiões, que um homem levado pela violência de seus desejos a agir contra a razão que calcula, prejudica-se e se levanta contra o que tem em si mesmo, de que sofre a violência; e que, como se tratasse da luta entre dois partidos, a razão encontra um aliado no ardor do sentimento que anima esse homem?

Assim, Platão buscou problematizar até quando essa relação poderia ser harmônica ou quando poderia deixar de ser. Para ele, é buscando uma harmonização entre estes dois mundos que os cidadãos gregos poderiam chegar a viver uma vida melhor.

A influência dos escritos platônicos no Ocidente é muito forte. Geralmente, isto inclui também uma forte influência nas artes. Sustentava que as artes influenciavam diretamente a moral da vida humana. Cada uma a seu jeito, e a música com maior destaque. De acordo com sua teoria, a arte imita as coisas físicas, como: a pintura da paisagem; o canto do pássaro; a fala de alguém, enfim, tudo isso seriam as aparências. Estas, por sua vez, imitam as formas puras, ou formas ideais, que ele entende como as formas geométricas, a justiça, o bem e o belo. Assim, as artes, além de possuírem a capacidade de mexer com nossas emoções, seriam cópias de cópias da forma pura, representações de representações da ideia, imitando a nossa realidade e nos conduzindo tanto para a verdade como para ilusão. Por isto, a arte também tem o poder de ser perigosa.

Na sua visão, é através do controle das artes, em especial, da música, que podemos formar cidadãos ideais para uma sociedade ideal. Para ele, as composições executadas, tanto pela cítara quanto pelo “aulos” – uma espécie de flauta do nosso tempo –, teriam o poder de influenciar, modificando a moral humana a rigor de quem as controla; logo, possuir o poder de controlar a vida na cidade estado grega, a polis. É notado em outro pesquisador que Platão procurou atentar para a função orientadora do artista nessa formação.

Platão, em sua obra, buscava entender além de outras questões, até onde iam as influências e as possibilidades geradas pela música na vida dos cidadãos gregos. Eram três os principais tipos de melodia: o Lírico, o Frígio e o Dórico. A diferença entre eles estava nos intervalos entre os tons e na altura dos seus sons. Esses três tipos de melodia influenciavam os homens, cada um exaltando certo tipo de emoção. O modo Lírico buscava exaltar as características sensuais humanas, de forma excitante; já o modo Frígio exaltava as características patéticas e entusiásticas; e o modo Dórico exaltava as características de força, de magnitude. Assim, pôde-se notar uma intrínseca relação entre as emoções e as ações morais humanas. Foi tentando sistematizar a forma de controle que cada estilo ou modo musical exercia sobre os cidadãos que os separou em dois grupos: os que auxiliavam na formação do cidadão da República e os que poderiam prejudicar essa formação, a fim de atender os interesses da polis.

 O homem é uma criatura mansa. Aliando-se nele boa educação a um natural feliz, torna-se, de regra, o mais tratável e divino dos seres; porém o mais feroz do quantos a terra já produziu, sempre que a educação for insuficiente ou mal orientada.

Eis a razão por que o legislador não deve considerar o problema da educação das crianças como algo necessário ou de somenos importância. A música, naquela época, estava presente em praticamente todas as manifestações da vida social grega, como festas religiosas ou profanas, jogos esportivos, teatros, funerais e até em guerras. Percebe-se, assim, o grande poder que a arte tinha, notando sua forte possibilidade influenciadora no nosso comportamento, logo, na nossa personalidade. Foi acreditando nisso que Platão insistiu que a arte, em especial a música, deveria fazer parte na educação dos cidadãos jovens da república procurando manter apenas os modos musicais que exaltavam o bem, além de conduzir a alma corretamente ao governo de suas paixões e ao encontro de sua razão. Tais modos musicais ajudam fixar na alma a harmonia em lugar da discórdia. Quando os jogos dos meninos são bons desde o começo, e mediante a ajuda da música tenham adquirido o hábito de boa ordem, este hábito de ordem os acompanhará em todas as suas ações e será para eles um princípio de crescimento. E se algo no Estado vier a cair, os governantes assim educados o levantarão de novo.

Sei não, mas, se vivo fosse, Platão teria recebido um prazo de 72 horas para explicar pro Fachin, aquele do Supremo, esse negócio aí de DÓRIO.