MITOS E VERDADES SOBRE O CANABIDIOL

MITOS E VERDADES SOBRE O CANABIDIOL
23/09/2024

O que a ciência diz sobre o assunto?

 

Neurocirurgião funcional e pesquisador da Unicamp explica em quais casos há evidências científicas para o uso do CBD e faz ressalvas sobre sua indicação indiscriminada

 

O canabidiol (CBD) tem sido apontado como um recurso promissor para a medicina moderna, especialmente em casos de distúrbios neurológicos como epilepsia, e é administrado, em grande parte, por meio de óleo sublingual, o que garante rápida absorção e efeitos mais rápidos. No entanto, não é um tratamento cientificamente comprovado para todas as condições e seus efeitos são marginais em alguns casos.

Derivado da Cannabis sativa, a eficácia do CBD depende de fatores como dosagem, absorção e qualidade do produto. O Dr. Marcelo Valadares, neurocirurgião funcional e pesquisador do Departamento de Neurocirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também alerta que a resposta ao tratamento depende especialmente de orientação médica adequada.

“A prescrição de canabidiol como indicação terapêutica para doenças em substituição a tratamentos convencionais e cientificamente comprovados deve ser vista com cautela. Esses produtos podem ajudar ou fornecer uma alternativa quando não obtemos respostas satisfatórias com medicamentos tradicionais, por exemplo”, explica.

Confira alguns dos principais mitos e verdades sobre o uso do CBD na medicina listados pelo Dr. Marcelo Valadares e respaldados por evidências científicas :

 

  1. O canabidiol é eficaz no controle da dor

Isso é um mito. Duas das dores mais intensas que existem, fibromialgia e dor do câncer, não são controláveis com canabidiol, de acordo com revisões sistemáticas da Cochrane Library.

As evidências de ensaios clínicos sobre o uso de produtos de cannabis na fibromialgia foram limitadas a dois estudos pequenos e de curto prazo. Neste contexto, não foram encontradas evidências que sugerissem que o canabinoide sintético interfira no tratamento de pessoas com fibromialgia, com eventos adversos como sonolência, tontura e vertigem que possam inviabilizar sua recomendação.

“Em relação à dor dos diferentes tipos e estágios da dor oncológica, o potencial dos medicamentos à base de cannabis e da cannabis medicinal não pode ser definido devido à falta de evidências de eficácia ou danos, com indícios de efeitos adversos psiquiátricos e do sistema nervoso prevalentes e não bem tolerados, o que pode limitar a utilidade clínica”, explica o Dr. Marcelo Valadares.

 

  1. O canabidiol é indicado contra Alzheimer

Mito. “O uso de canabinoides para tratar pacientes com síndrome demencial, caracterizada por declínio cognitivo e funcional e que afeta principalmente idosos, é alvo de intensas pesquisas, mas não há resultados uniformes até o momento”, reforça o especialista.

Uma revisão sistemática Cochrane, que incluiu dados de quatro estudos de curto prazo envolvendo 126 participantes — a maioria dos quais tinha doença de Alzheimer — não mostrou benefícios nem danos para pacientes com demência. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia é contra seu uso, assim como a Academia Brasileira de Neurologia, que descobriu que não há evidências científicas que apoiem o uso de CBD ou mesmo THC para tratar sintomas, reverter ou estabilizar o Alzheimer.

A revisão também destacou a necessidade de estudos de longo prazo para avaliar os resultados. Nesse sentido, cientistas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) estão conduzindo os maiores ensaios clínicos do mundo, com 140 pacientes e duração prevista de três anos, para avaliar como o uso de substâncias extraídas da Cannabis sativa pode contribuir para o tratamento do Alzheimer e do Parkinson.

 

  1. O canabidiol é a nova aposta para pacientes com epilepsia

Verdadeiro. Atualmente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) aceita o uso de canabinoides em ensaios clínicos controlados ou na ausência de alternativas terapêuticas para crianças e adultos jovens com crises epilépticas refratárias aos tratamentos padrões, como a síndrome de Dravet e a síndrome de Lennox-Gastaut (LGS). Estudos mostram que o CBD é capaz de reduzir e, em alguns casos, eliminar as convulsões em pacientes.

O uso do CBD para casos de epilepsia é a aplicação com maior número de estudos e maior período de análise, com estudos que datam da década de 1980 — começando com Elisaldo Carlini, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), um dos pioneiros do trabalho com maconha medicinal.

 

  1. O canabidiol mostra-se promissor no tratamento de crianças com transtorno do espectro autista (TEA)

Parcialmente verdade. “Até o momento, não há medicamentos comprovadamente eficazes no tratamento dos principais sintomas do TEA, que consistem em dificuldades de comunicação e interação social, e padrões restritos e repetitivos de comportamento, apesar do interesse em explorar o potencial terapêutico do CBD”, explica o Dr. Valadares.

Entretanto, indivíduos com TEA frequentemente apresentam alguns transtornos psiquiátricos associados, como ansiedade, depressão, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), e epilepsia. No caso desta última, há evidências científicas significativas da ação anticonvulsivante do Canabidiol em epilepsias da infância e adolescência refratárias aos tratamentos convencionais, razão pela qual pode ser benéfico para pessoas autistas e é regulado pelo CFM.

 

  1. Os canabinoides podem ser usados no tratamento da esclerose múltipla

Parcialmente verdade. “Terapias à base de Cannabis sativa já são indicações bem estabelecidas para controlar a espasticidade – excesso de tônus muscular que dificulta o movimento e causa dor –, que é um sintoma da esclerose múltipla”, explica o neurocirurgião. É importante ressaltar que a substância é, na verdade, um tratamento para esse sintoma especificamente, e não para a esclerose múltipla como um todo.

Neste caso, o principal fator responsável pelo benefício é o THC (tetrahidrocanabinol), embora o CBD possa ser usado em conjunto para potencializar a resposta e proporcionar alívio ao paciente.

 A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já autorizou o uso desta combinação visando tratar espasmos moderados e graves ligados à esclerose múltipla em pacientes que não apresentaram bons resultados após tratamento com medicamentos conservadores.

Também é importante entender: CBD X THC

A planta contém centenas de substâncias químicas, 60 das quais são classificadas como canabinoides. Em produtos medicinais, o CBD é o principal ingrediente ativo presente, e não causa efeitos psicoativos nem gera dependência.

Embora o CBD tenha ganhado destaque, ele nem sempre é o protagonista. Outro composto, o THC (tetrahidrocanabinol), responsável pelos efeitos psicoativos da Cannabis sativa, também tem potencial terapêutico comprovado.

“Os avanços no número de estudos clínicos e o interesse de médicos e pacientes pelos canabinoides, sejam eles CBD ou THC, em suas diferentes dosagens e administrações, são de imenso valor, mas é fundamental, no consultório, prescrever esse tipo de medicamento com uma abordagem humanizada, sem criar falsas esperanças para as pessoas que estão sofrendo”, pondera Dr. Marcelo.

 

Informações à imprensa: Nathalia Abreu